É cada vez mais complicado desprezar a tecnologia ou deixá-la só por uns minutos, para não dizer segundos. Começo a ficar seriamente preocupada.
Tenho amigos sim, família, trabalho, colegas e muita vida própria, talvez demasiada…quero fazer tudo.
Mas no meio do tudo em 24h, olho 62 vezes para o telemóvel. E estou a ser modesta, tendo em conta que nas 24h em 8h estou de olhos fechados e deixo o animal a carregar.
A alvorada é uma rotina de 5 apps em 5/7 segundos. Ainda quase nem abri os olhos e ao som do rádio que me vai acordando, desloco o dedo no ecrã e de uma forma automática “refresco” o gmail, o whatsapp, o facebook e as contas bancárias. Isto com esta crise nunca se sabe se se acorda rico ou pobre. Ou se há um bug no FB e de repente de 600 “amigos” passo a solitária. Ou não vá eu ter perdido uma conversa mais caliente de algum membro com insónias de um dos vários grupos que tenho na aplicação maravilhosa, onde finalmente é tão fácil dizer onde estou ou partilhar o meu dia-a-dia em fotografias com as pessoas que mais gosto, nomeadamente com aquelas que estou todos os dias. Segue-se a higiene matinal e ao longo de todo o dia, excepto quando estou com os meus preciosos clientes, ele anda comigo. Põe na mala, tira da mala, põe no carro a carregar (pela segunda vez no mesmo dia), tira do carro, deixa cair no chão, apanha, desbloqueia, consulta FB, toca o whatsapp, recebe-se um email, daqueles automáticos que não interessam para nada (mas que nunca se sabe se não será uma proposta de emprego milionária), toca, desliga, manda SMS, lê as notícias durante um almoço solitário, onde quem passa não alegra as vistas. E quando já se consultou tudo e não há nada a tocar e a “upgradar”, carrega-se no botão pequenino lá de cima e nisto eis que fica tudo preto e uma tristeza profunda nos invade. Mais ou menos como, ninguém me liga, estou sozinho no mundo, o que faço agora? Já não consigo ficar a olhar para as pessoas que passam, a apreciar a paisagem, a ler, a pensar, ou simplesmente a “não fazer nada”. Mas o que é isso de não fazer nada?…não sei…mas não pode ser…não sou eu!
E em 3 segundos, tempo necessário para pensar que estava a fazer figura de parva a não fazer nada, caio na tentação, carrego no botão redondo, passo o dedo na horizontal por cima da “nossa” foto de fundo e com um sorriso de ansiedade, estou de volta. Será que alguém se lembrou de mim?
Também posso ser eu a lembrar-me de alguém e a mandar um “Olá”. Porque não? Hum…passo o dedo pela imensidão de aplicações que acumulei, a ver se alguma dá sinal. Nem sei bem qual delas abrir…posso apenas ficar a fingir que estou a abrir algo, só para não fazer a mesma figura de a bocado…não estar a fazer nada…a olhar para o ar. Duas vezes parece-me demasiado em apenas 5 minutos.
Toca finalmente…um email!…dos vouchers…frustração…
Toca novamente…um whatsapp…a resposta ao Olá, só com um Olá…desisto!
E este é o momento alto do dia! Quando deixamos o animal arrefecer de tanto touch e estamos só nós a fazer o nada que achávamos já não conseguir fazer. É nesta altura que nos lembramos que há coisas que o animal não nos pode dar…como os cheiros, os abraços…e o papel, que embora haja quem pense que ele já não faz falta, certamente em algum momento do dia, (seja a que horas for, dependendo do organismo de cada um) vai pensar o contrário. Afinal papel é papel!


Como sempre, adorei o artigo! Continua Querida. A escrita liberta e alimenta.
Quem me dera saber escrever…