
Hoje podia ser mais um dia mas não é. É dia da CRIANÇA. É dia de recordar os direitos das crianças e os deveres dos pais. É dia de lembrar que ser mãe é a profissão mais dificil mas também mais gratificante do mundo. É dia de lembrar que ser MÃE são muitos verbos conjugados no passado, presente e futuro.
Não sou mãe mas sou filha de uma grande mãe que por sua vez também é filha de outra grande MÃE, a minha avó.
Falo de MÃE no dia da criança porque a felicidade de uma criança depende tanto da sua MÃE.
Hoje sou feliz porque tive uma MÃE que me acompanhou em todos os momentos da minha vida.
Hoje sou o que sou porque nunca me senti só. Mesmo hoje, sem MÃE, não me sinto só por tantas palavras e boas recordações que ela me deixou enquanto cá esteve.
Hoje só consigo estar grata por tudo, tudo.
Companheira fiel, amiga e sempre MÃE.
Mulher de coragem.
Isso, muita coragem.
Lutadora.
Oh como eu queria ser só metade do que ela foi capaz de ser.
Decidida a alcançar os grandes objectivos da sua vida, um bom emprego, duas filhas e uma casa boa para morar (no centro da cidade). Conseguiu tudo.
Trabalhadora,
até aos últimos dias.
Mãe de 2 filhas mas madrinha de tantas outras. Como ela gostava de crianças e as tratava como se fossem suas filhas.
Nasceu em Malange no dia 10 de Agosto de 1955, mais uma Leoa para a família. Foi a primeira de 4 irmãos, filhos de um casal apaixonado e aventureiro, o avô Zé e a avô Veta.
Mulher incrível…
Curiosa e inteligente,
fez a sua carreira e queria sempre saber mais. Nas viagens procurava conhecer tudo. Não podia regressar sem completar a check-list de todos os museus, castelos, igrejas, espectáculos, esplanadas, exposições, lugares. Não teve tempo para conhecer o mundo mas conheceu grande parte dele.
Desafiadora,
gostava de regras mas desafiava-as. Gostava de ter pintado o cabelo e ter sido hippie mas a educação rígida e o lugar onde viveu em adolescente nunca o permitiram.
Sonhadora,
podia ter tido uma vida diferente mas cedo se apaixonou, casou e teve duas filhas e toda a sua vida foi dedicada à familia e ao trabalho. Não tinha tempo a perder. Tempo era e é dinheiro.
Conhecedora,
lia muito e tinha opinião formada sobre quase tudo. Desde politica, cultura, economia, etc.
Prática,
agia rápido e sem dramas e complicações. As mulheres não são todas complicadas, ao contrário do que os alguns homens pretendem que assim seja.
Democrática,
adepta da democracia de direitos mas também deveres. Não se importava de ter menos para dar a quem mais precisava. Acreditava que em liberdade é a melhor forma de viver, no entanto temos que ser responsáveis pela nossa liberdade, e ela era e muito. Reconhecia que havia espaço no mundo para quem não conseguissse ser mas que era necessário ajudar essas pessoas.
Quando lhe perguntei se era livre disse que sim.
Bem com a vida,
realizou os seus grandes objectivos, casar, ser mãe, ter uma casa e ter duas filhas. A sua grande paixão, o meu Pai, trouxe alguma dose de picante à sua vida organizada. Passámos aventuras os 4 que nunca mais esquecerei.
Quando lhe perguntei se mudava alguma coisa, disse que não. Só não queria uma coisa, morrer antes da mãe mas…o pai chamou-a mais cedo.
Segura,
não tinha medo de nada. Ou melhor, tinha um grande medo, elouquecer. Nunca conseguiu perceber a loucura e por isso nunca se aventurou em excessos. Não fumava, não bebia.
Rija e dura de roer.
Não era frieza mas sim dureza. Só a vi chorar uma vez.
Forte,
muito forte para si e para os outros. Sempre cheia de força para dar.
Ouvinte,
ouvia tudo e todos. Vivia os problemas dos outros e fazia de tudo para ajudar. Mas raramente contava os seus e nunca pedia ajuda.
Lembro-me de lhe pedir que me contasse as suas inquietudes mas sempre respondia, está tudo bem filhota. Talvez nunca tivesse encontrado alguém para os contar.
Directa e sem papas na língua,
sempre super educada mas nunca deixava de expressar a sua sempre bem fundamentada opinião. Sem medo de não concordar.
Amiga fiel da família,
excelente filha e muita amiga de irmãos e sobrinhos. Sempre assumiu as responsabilidades de irmã mais velha e muito do seu tempo (mesmo quando era pouco) era dedicado à família. Quando o pai faleceu assumiu o onus da união.
Chefe e colega exemplar.
São muitos os testemunhos do seu excelente trabalho enquanto colega, chefe, líder e amiga. Dedicou muito tempo à sua profissão. Quando lhe perguntava, dizia que teve muita sorte em ter um bom emprego e que o tempo que dedicava à familia não precisava de ser muito mas sim ser de qualidade. A verdade é que quando estava, estava a 100% e dava-nos os melhores conselhos que um filho pode receber.
Conselheira,
juízinho, equilibrio e bom senso eram palavras ouvidas todos os dias.
Quando lhe perguntava, “ai ma outra vez?”, ela respondia, há coisas que nunca me vou cansar de vos dizer. Sou vossa mãe até morrer. A verdade é que acabei por decorar estas palavras.
A mulher dos 7 ofícios.
Muitas habilidades escondidas. Sabia pintar tocar piano, cozinhar, criar e até vender…que ela dizia que não. Quando lhe perguntava, mas não gostas de vender? Tu estás a vender. Fidelizava os clientes (pais das crianças) pela confiança e honestidade que transmitia.
Honesta.
O primeiro que não concorda, levante o braço.
Aventureira.
Sempre pronta para partir. Adorava tomar café no aeroporto e “fazer livros” como nós diziamos. Olhava para as pessoas que passavam e imaginava a história de cada uma. Inventava e era tão giro ouvi-la.
Respeitadora,
respeitava a liberdade, a opinião e o espaço dos outros.
Observadora,
adorava esplanadas e sol. Preferia piscina a mar, não gostava de areias. Adorava chocolate e café.
Organizada,
adorava arquivos, pastas, capas,post it’s, agrafadores, clips, caixinhas e muito excel. Tudo organizadinho e direitinho.
Reservada,
não era impulsiva nem tinha muitas paixões. A paixão era viajar e dormir em hoteis.
Não apreciava muito música, mas gostava de Rui Veloso, Resistência – Nasce Selvagem e Maria João e Mario Laginha. Adorava ir ao cinema. O último filme – Os gatos não têm vertigens – grande filme.
Adorava a cor amarela – cor da felicidade.
Sempre respondia primeiro aos desejos dos outros e só depois aos seus. Não entendo como um padre um dia lhe disse que era egoísta. Certamente há muita gente a mentir na igreja.
Vaidosa,
sempre se vestiu e se arranjou com uma verdadeira senhora. Zeza executiva como a chamavamos. Havia sempre uns trocos para os Saldos no Manuel Botiques na Portela.
Gulosa,
Adorava petiscar. Paracuca e docinhos acompanhados de vários cafés. Fazia um delicioso arroz de pato e um bacalhau no forno de babar ao domingo.
Nada falhava, sabia as datas de aniversário, de casamento de toda a família, amigos e conhecidos. Não falhava nada. Impressionante.
Nunca foi muito amiga de ginástica mas andava sempre em dietas milagrosas. Quando era nova brincava com os irmãos e primos ao ar livre, subia às arvores, corria, jogava badminghton, jogava basket. Andou no ginásio mas nunca se aficiou. Gostava mesmo era de ar livre.
Tinha o grande sonho de viver na cidade. Nasceu em Malange e viveu alguns anos no campo mas como era vaidosa e gostava de modas sempre quis ir para a cidade para estar mais perto das tendências. 🙂
Memória incrível,
lembrava-se de todas as histórias e contava-nos mas nós, com o tempo, infelizmente, fomos esquecendo algumas.
Gostava eu de poder fazer o que todos os dias fazia questão de fazer. Ligar à “maezinha” a saber se estava tudo bem.
Energia para dar e vender.
Ela punha tudo a mexer. Se havia tarefas, era uma questão de organizar, destinar e fazer acontecer. Tudo é possível.
Quando lhe perguntava, vamos passear? A resposta era invariavelmente sim. E lá íamos sempre a conversar sobre as nossas dúvidas, as nossas certezas, o bem o mal, tentando sempre atrasar o último dia que estava tão perto e tão certo de vir.
Recentemente, quando lhe perguntava, o que te apetece, onde gostavas de ir, quem gostavas de ver? E em paz respondia, só quero ficar aqui, já cumpri a minha missão. Esperou até ao último dia e deixou-nos em paz com um sorriso que nunca mais me vou esquecer.
Deverão estar a pensar porque é que uma mulher destas foi tão cedo para o céu. É o que pergunto todos os dias a Deus e julgo que nunca irei encontrar uma resposta. O mundo é realmente muito injusto.
Convenço-me que quem vive a vida a sério, quem se chateia, quem se enpolga com as grandes questões do mundo, quem questiona, quem luta com todas as forças, quem dá todo o amor que tem sem esperar receber, tem um desgaste bastante mais rápido do que quem apenas caminha pela vida cantando e rindo, colocando as preocupações nas costas de outros.
Se cá estivesse hoje teríamos tantas conversas em atraso, tantas novidades, tantas fotografias, tantas histórias e ela teria certamente tanta coisa mais para nos ensinar mas o mundo é realmente muito injusto.
Nós por cá, já sem uma parte de nós vamos recordando, sempre com receio de chorar, mas quem disse que chorar faz mal? O que faz mal é não ser capaz de recordar porque afinal…recordar é viver.
Dizia muitas vezes
“…vocês ainda se vão lembrar muito da zeza”
…Sim…todos os dias…
