
Quem nunca…Encontrou inesperadamente uma estória feliz?
Inesperadamente ao fim de uma hora ainda estávamos ali sentadas no banco do shopping , cada uma com o seu sorriso a falar da vida e em jeito de conclusão dissemos uma para a outra que realmente o tempo voa quando o momento sabe bem.
Inesperadamente dou por mim muitas vezes dentro de vida de alguém como se estivesse a ver um serie da Netflix ou um filme daqueles que nos faz sentir a actriz principal. Parece que já estivemos ali, naquele momento, com aquelas pessoas, naquele sitio ou naquela situação.
Acontece inesperadamente. Algumas pessoas cruzam o nosso caminho e deixamo-las permanecer porque nos sabe bem.
E sem darmos pelo tempo passar, temos a sensação de estar a conversar com alguém que embora nunca tivéssemos visto, sabe a amigo(a) porque a conversa é genuína e corrida, sem virgulas e sem julgamentos. É a verdade. Da melhor forma que quem a conta a possa contar.
Nenhum de nós está ou se considera só. Estamos rodeados de pessoas, uns mais do que outros, cada um à sua maneira, como cada um quer e lhe parece melhor. Mas nem sempre somos escutados no momento em que nos apetece ser e normalmente é quando acontecem as melhores e mais inesperadas estórias.
Quem nunca…ouviu inesperadamente uma estória feliz de alguém que inesperadamente teve vontade de ser ouvido?
Estas estórias fazem momentos, contam vidas e dão-nos vida.
E ali ficámos sentadas no banco do shopping a falar da vida, do amor. A descrever uma paixão assolapada com 50 anos de vida. Não é apenas real, senão absolutamente bonita a forma desta senhora descrever a estória do amor da sua vida que até hoje perdura.
E eu por sorte inesperada, ao ouvir ganhei o dia, ganhei vida e ganhei esperança. Não só pelo facto de não estar à espera mas também por já me custar a acreditar que estas estórias existam.
Gostava eu de Vos conseguir transmitir o que senti ao ouvir esta estória mas a mesma estória contada duas vezes nunca é igual.
Sempre tive uma atração por estrangeiros, dizia a senhora. Desde pequena que quis aprender inglês. Atraía-me o resto do mundo. E veja só, fui acabar com um holandês. Um homem alto, loiro, bonito, elegante que vinha a descer as escadas do café / esplanada da praia do Tamariz aparentando estar de visita e que de forma educada e descomprometida me perguntou se se podia sentar na minha mesa.
A jogar com o pouco inglê que resultou da minha curiosidade, trocámos algumas palavras mas sobretudo olhares e intenções simpáticas embora muito tímidas.
Eu vivia com a minha mãe no Estoril e estava bem sozinha, dedicada à minha vida familiar e profissional. Estava apenas a beber um café e incrivelmente para um dia de Inverno, com uma vontade imensa de comer o gelado habitual de verão que só ali me sabe bem.
Esteja à vontade para sentar. Eu estou sozinha e a esplanada está cheia.
Inevitavelmente deixei escapar alguma sedução reciproca naquele tete- à-tete matinal. Inevitavelmente deixei-me levar pela classe, simpatia e elegância daquele holandês que me dissera que estava por cá de passagem mas que por motivos profissionais se voltariam certamente a ver, embora estivesse já de partida.
Reticente, continuei a deixar os meus olhos apreciarem toda aquela gentileza de homem e deixei-me permanecer até ao adeus.
Um sentimento de conexão que ultrapassou francamente o meu inglês curioso e arcaico permaneceu de forma inesperada no tempo e veja só, estamos casados há mais de 50 anos.
Ele trabalhava numa multinacional e vinha a Portugal com alguma frequência. Adorava Portugal como qualquer estrangeiro e até mesmo nós próprios. Quem pode não gostar deste país cheio de sol e coisas boas?
Foi só ao fim da sua quinta visita que de uma forma muito nobre e sincera me pediu que fosse sua “mais do que a amiga portuguesa”.
Ainda hoje me sinto apaixonada por ele. De uma forma diferente, claro. Mas quero e vou cuidar dele toda a vida.
Sabe…somos muito diferentes. Eu sou muito emocional, gosto de paixões, gosto de dar e mostrar afectos. Sou naturalmente extraorvertida e dar amor é algo que me dá vida, faz parte de mim.
Ele é mais reservado, menos conversador, menos dado aos afectos.
Escolhemo-nos para dançar na vida e dançámos muito. Vivemos muitas aventuras juntos. Se vivemos…
Hoje, embora tudo seja tão diferente, embora ele não se lembre muitas vezes do que me disse ontem e nem tão pouco consiga ser independente eu estou aqui para ele. Embora isso me doa todos os dias no coração.
Foi, é e será a paixão da minha vida.
Venho ao shopping passear, passar o tempo, tentar distrair-me na esperança de ter um encontro inesperadamente bom como o de hoje, aqui, consigo.
Já passou uma hora e entendo que tenha que ir à sua vida. Foi tão bom.
Foi óptimo ouvir a sua estória feliz, disse eu cheia de vida.
Bebemos um chá um dia destes?
