A primeira estória é a minha mãe. Chamávamos-lhe Zeza.
Nasceu em Malange, a 10 de Agosto de 1955. Foi a primeira de quatro irmãos. Casou, foi mãe de duas filhas, teve uma carreira que a orgulhava, e viveu a vida sem tempo a perder — “tempo era e é dinheiro”, dizia. Partiu cedo demais. Esta é a estória de como a recordo, dividida em corpo, mente e coração.

Corpo
Amarela. Essa era a cor dela — a cor da felicidade, dizia sempre.
Preferia esplanadas e sol a praia, piscina a mar. Adorava chocolate e café, e petiscar paracuca e docinhos. Vaidosa, vestia-se sempre como uma verdadeira senhora — “Zeza executiva”, chamávamos-lhe. Tinha uma mala sempre pronta a partir, adorava tomar café no aeroporto e imaginar histórias de estranhos que passavam. E todos os dias, sem falhar, a mesma chamada: “está tudo bem, maezinha?”
O corpo da saudade sabe a café da manhã e a uma voz que já não atende.
Mente
Lia muito. Tinha opinião formada sobre quase tudo — política, cultura, economia. Curiosa e inteligente, nas viagens não regressava sem completar a lista de museus, castelos, igrejas, exposições. Directa e sem papas na língua, mas sempre educada. Tinha uma memória impressionante: nunca esquecia uma data de aniversário, uma promessa, uma história de família.
Era organizada até ao excesso — arquivos, pastas, post-its, tudo direitinho. Prática, agia rápido, sem drama nem complicação.
A mente da saudade organiza-se em arquivos que já ninguém mais sabe abrir.
Coração
Ouvia tudo, de todos. Vivia os problemas dos outros como se fossem seus. Raramente contava os dela, nunca pedia ajuda. Quando lhe perguntava o que a preocupava, respondia sempre: “está tudo bem, filhota.”
“Sou vossa mãe até morrer”, dizia. Decorei essas palavras sem saber que um dia seriam quase tudo o que me restaria dela.
Nos últimos dias, perguntei-lhe o que lhe apetecia, onde gostava de ir, quem gostava de ver. Respondeu, em paz: “só quero ficar aqui, já cumpri a minha missão.” Esperou até ao último dia e deixou-nos com um sorriso que nunca mais esqueço.
O mundo é realmente muito injusto. Quem vive a vida a sério, quem se entrega sem esperar receber, gasta-se mais depressa do que quem apenas caminha, cantando, sem grandes questões. Se cá estivesse hoje, teríamos tantas conversas em atraso.
Se lhe perguntasse
Já não está cá para responder. Mas se lhe perguntasse hoje do que tem saudades, sei o que diria — não é real, é só o que imagino que seria.
Diria que tem saudades das nossas viagens a quatro. Do check-list interminável — mais um museu, mais um castelo, mais uma esplanada por completar antes de regressar. Da confusão organizada de sermos quatro à mesa a decidir o que ver a seguir. Diria que sente falta de nunca ter tempo a mais, só o suficiente, e de o gastar sempre connosco.
Diria que tem saudades de correr o mundo de norte a sul com a família toda a bordo. Do mar que nos seguia de país em país. De um pôr do sol em África, laranja e vermelho a incendiar o céu, e das cidades que brilhavam à noite como se soubessem que estávamos de passagem. Diríamos sempre juntos — essa era, no fundo, a única direcção que sabia seguir.
O quadro


Uma rosa-dos-ventos. Norte, sul, este, oeste — todas as direcções que já percorremos juntos. As cores nascem num pôr do sol de África, laranja e vermelho, e escorrem devagar até ao azul profundo do mar que atravessámos tantas vezes. No centro, um selo dourado: Super Family. Porque foi sempre isso — uma família de super-heróis discretos, sempre juntos, sempre a caminho do sítio seguinte.
A frase
Recordar é viver.
A palavra
Viajar.
