Talvez não tenha porque não existe mas certamente já desejou ter.
Quantas vezes já não esteve quase com os dentes na calçada? Quantas vezes andou em Lisboa sem olhar para o chão? Quantas vezes não pensou “hum…hoje é melhor não levar saltos”?
É saltos e sapatos novos. Os saltos enfiam-se nos buracos sem cimento entre as pedras da calçada portuguesa e as solas por estrear deslizam que parece manteiga.
Já me ri algumas vezes à conta disto mas sei que é feio e não gostava se fosse comigo.
Compreendo que a calçada portuguesa seja diferente, icónica e muito bonita (lá isso é) mas não dá…não dá mesmo…
Lembro-me daqueles passeios antigos já em forma de lomba. Vê-se alguns na baixa. Qual é o sapato que adere àquela superfície redonda e polida de tanto sapato que por ali já passou?
Oh…mas é muito bonito! É, mas não é prático. Não é prático nem higiénico. É que aqueles buracos onde já não há cimento, para além de nos comerem os saltos, são autênticos cinzeiros. Cigarros, pastilhas, cagadelas das gaivotas. Cabe lá tudo, num buraquinho tão pequeno, outrora de cor branca.
Mas é bonito e ninguém mais no mundo tem, excepto o calçadão do Rio. Pois…e porque é que ninguém mais no mundo tem?…porque não dá! Não dá para andar, não dá para limpar…
Mas distingue a cidade e dá-lhe luz.
A verdade é que há bem pouco tempo a bonita calçada portuguesa esteve em discussão. Acabar ou manter? Surgem várias opiniões de entendidos, uns contra outros a favor. A juntar às desvantagens já acima referidas surgem outras mais importantes que quase vetam o fim da calçada portuguesa, como a dificuldade de circulação de pessoas em cadeiras de roda e, por experiência própria, carrinhos de bebé.
Mas é arte! Se é arte, vamos tratá-la como tal. Se é arte que seja feita por artistas. Artistas que dominem a técnica. E olhem que não é fácil…Pelos vistos só existem 20 solitários calceteiros em Lisboa. Já foram 400. No mínimo insuficiente para largos milhares de metros quadrados.
Vamos tratar do que é nosso e faz parte da nossa história. Vamos manter de uma forma cuidada e sustentável o que temos de único. Não precisamos de um seguro mas é recomendado que olhemos para ela sempre que passeamos. Ela é perigosa, egocêntrica, narcisista, mas é bonita. Só temos que saber lidar com ela.
Afinal, quantos de nós já não o fazemos todos os dias?

